Memórias Afogadas: A Tragédia Silenciosa de Ricatla

 


À primeira vista, Ricatla parece agora apenas um lago sereno, com a superfície a espelhar o céu como se nada de grave tivesse acontecido. Mas a calmaria é ilusória. Sob aquelas águas paradas jazem ruas inteiras, quintais, paredes e histórias que foram abruptamente arrancadas pela força da natureza.

O cenário mudou em 2024, quando chuvas torrenciais castigaram o município de Marracuene, na província de Maputo. Em poucas semanas, a água tomou conta de terrenos e casas. Algumas moradias recém-erguidas ainda cheirando a cimento fresco foram engolidas antes mesmo de receberem os primeiros móveis ou ecoarem o riso das primeiras conversas à mesa.

Para muitos moradores, a saída foi feita às pressas, carregando apenas documentos, alguma roupa e memórias ainda vivas. O resto ficou para trás, soterrado pela água que não dá sinais de recuar. As famílias, dispersas, foram obrigadas a procurar abrigo em bairros distantes, onde o custo de vida é mais alto e a sensação de “pertencer” é frágil.

Há quem, todos os dias, regresse à margem, apenas para fixar o olhar no ponto onde, em tempos, se erguia o portão de casa. Alguns apontam de longe: “Ali era a minha cozinha... e mais adiante ficava o mangueiro.” Outros, em silêncio, apenas observam, como se a água pudesse devolver respostas.

O que era um bairro com sons de crianças, pregões de vizinhos e o cheiro a comida caseira, tornou-se um cemitério líquido de memórias. O silêncio só é cortado pelo vento e pelo som suave das ondas que escondem uma tragédia humana.

A grande interrogação persiste: será que algum dia estas famílias voltarão a ver a terra que a chuva lhes roubou? Ou Ricatla ficará para sempre afogada no tempo, como um aviso silencioso sobre a força implacável da natureza e a fragilidade daquilo que chamamos de lar?

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